sexta-feira, 29 de abril de 2011

Descansar

Para manter o equilíbrio entre os três temas do blog, hoje ia postar um texto sobre a Copa de Mundo e as Olimpíadas a serem realizadas no Brasil em 2014 e 2016, respectivamente. Mas não estou me sentindo bem, com um desconforto que, tenho  impressão, começou quando eu fazia a primeira sondagem urinária do dia, por volta das 7h00 da manhã.
Fiquei na dúvida se deveria falar sobre isso, mas lembrei que a proposta deste espaço é ser também uma espécie de “diário virtual”, onde eu possa “armazenar” meus medos, sensações e temores, além das reflexões habituais. Compartilhar essas coisas escrevendo sobre elas me parece acalmar um pouco a alma, por isso vou deixar minhas considerações sobre a Copa e as Olimpíadas para segunda-feira.
Nos últimos dois anos, por várias vezes, me senti como hoje. Eu não sei até que ponto é uma dor física, real, ou é um desequilíbrio emocional. Bom, na verdade essas duas coisas devem estar juntas. Da mesma forma, os problemas urológicos e as dores neuropáticas parecem se misturar, e o resultado é um mal-estar, um aturdimento, um desconforto geral, que sinto neste momento.
Minhas pernas, braços e mãos estão formigando, e meu coração parece estar batendo mais forte (minha pressão arterial, pelo menos, não está alta; já aferi com ajuda do Anderson). Depois que um médico me disse que eu poderia ter um AVC (acidente vascular cerebral) se a pressão subisse demais, fiquei meio paranóico com isso, pois meu maior medo é ficar ainda mais limitado nas funções motoras, além dos possíveis danos cognitivos.
 Leio o que escrevi até agora, são 08h10 da manhã. Fico na dúvida de novo se devo expor publicamente essas coisas, mas vou em frente. Quando estou como hoje, tenho enorme vontade de, apenas, "descansar". Me imagino num lugar tranqüilo, ao lado de pessoas queridas que já não estão mais aqui, como meus avós Mário e Anamélia, meus primos André e Roberta. Ao mesmo tempo, racionalmente, sei que não é possível fazer esta escolha.
Também não a faço porque esta seria uma opção egoísta. A vida de cada um de nós significa, compõe a vida daqueles que nos amam. Eu me sinto extremamente amado e querido pelas pessoas que me cercam, sobretudo pela minha esposa e meus pais. Em dias como hoje, vivo mais por eles do que por mim.
Rejeito as explicações religiosas e dogmáticas sobre a vida. Não me convenço de que o sexto filho numa família pobre e desestruturada é uma vontade de Deus. Precisamos fazer um debate maduro sobre o direito à eutanásia e ao aborto (tema que regrediu horrores na última campanha presidencial). Com essas reflexões ocupo minha cabeça, e vou continuar fazendo isso depois que terminar este texto jogando xadrez na internet, minha válvula de escape.
Chega, está bom. Desculpem se fui indiscreto hoje, expondo demais minha vida particular. Mas escrever essas linhas é também outra forma de "descansar" a alma e acalmar o espírito. Obrigado, me sinto um pouco melhor, são 08h24 da manhã.

quarta-feira, 27 de abril de 2011

Reforma política – aspectos gerais

Creio que essa postagem não vai despertar muito interesse, mas acredito no seguinte: a pior forma de se sentir indignado com a política é se afastar dela por completo. Você tem todo o direito de ser um “alienado” no assunto, mas, se for assim, não endosse generalizações como: “todo político é corrupto” ou “só tem ladrões em Brasília”. Essas afirmativas implicam, em última instância, numa autorização para que todos sejam, de fato, corruptos e ladrões.
Feita essa breve introdução, o tema de hoje, para aqueles que continuaram lendo até aqui, é a tão falada reforma política. O assunto é controverso e complexo, mas gostaria de pontuar alguns aspectos que servem de base para outras discussões e poderiam ser, cada um destes aspectos, temas de postagens exclusivas, como sugeriu meu pai. Mas vamos iniciar com uma visão geral sobre o que seria, em minha opinião, uma boa reforma política.
É lamentável, primeiramente, que o Supremo Tribunal Federal tenha declarado inconstitucional a chamada “cláusula de barreira”, que determinava um mínimo de 5% de representação nos votos para Câmara dos Deputados para manutenção dos partidos. Se este critério tivesse sido adotado, tanto em 2006 como em 2010, e não por coincidência, oito partidos teriam superado este percentual: PSB, PDT, PT, PMDB, PSDB, PP, PR e DEM. Em tese, haveria um bloco de centro-esquerda com PSB, PDT e PT, o PMDB no centro, PSDB, PP e PR no centro-direita e o DEM, herdeiro da ditadura, na direita. Nas eleições de 2010, em conjunto, estes partidos tiverem 75% dos votos válidos.
Entretanto, na prática, sabemos que o sistema partidário brasileiro, com suas determinações locais/estaduais (além das fisiológicas), é bem mais complexo do que isso. Mas seria um alívio não mantermos uma estrutura com quase trinta partidos políticos, todos com tempo na TV, funcionando muitas vezes como “legendas de aluguel” (com a honrosa exceção do PSOL). Até porque, nas democracias mais duradouras e maduras, não mais do que 3 ou 4 linhas ou tendências políticas compõem o arco ideológico para a escolha do cidadão eleitor.
Menos partidos políticos com posições ideológicas mais claras ajudariam na adoção de duas medidas positivas para a reforma política: a) o financiamento público das campanhas; b) o voto em lista partidária. O primeiro ponto – de difícil aceitação na opinião pública porque pode ser entendido como mais uma fonte de gastos no setor público – é interessante e necessário para romper com a promiscuidade que hoje impera entre os interesses privados e as candidaturas políticas. O ideal seria um teto razoável, uniforme e modesto de recursos públicos para as campanhas, aumentando-se, em paralelo, os mecanismos de controle e fiscalização, coibindo as milionárias doações efetuadas por bancos, construtoras ou outros entes privados.
Já o voto em lista tem o grande mérito de “despersonalizar” a política. Mais do que a biografia individual do candidato, deveria interessar ao eleitor as idéias que ele defende, as causas em que se envolveu e o matiz político-ideolódico do partido que ele representa. Hoje existem situações esdrúxulas, como a que ocorreu na eleição para o Congresso no Rio de Janeiro: o deputado Jair Bolsonaro (aquele) ficou em primeiro no seu partido, PP, e tirou a vaga do segundo, um militante do movimento homossexual, contra a homofobia
Tudo bem que não entendo direito o que esse cara está fazendo no PP, mas o problema geral que está colocado nas regras vigentes é que o seu colega de partido é seu principal adversário nas eleições.
Voltaremos ao tema outras vezes, aprofundando o que foi colocado e trazendo outros aspectos, como o voto distrital, reeleição e a possibilidade do voto facultativo (sou favorável). Infelizmente, porém, é difícil acreditar que grandes mudanças acontecerão, assim como ocorre quando pensamos em melhorias no futebol, calendário, etc. e lembramos da CBF e dos dirigentes dos clubes. Mas é preciso perseverar, criticar, se envolver, pois do contrário esses que pensam só nos seus interesses tomam conta mesmo.
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segunda-feira, 25 de abril de 2011

Lei de Cotas como panacéia

Quando se discute o acesso das pessoas com deficiência ao mercado de trabalho, quase que automaticamente se fala também na chamada “Lei de Cotas”. Esta “Lei” garante um percentual de vagas, de 2% a 5%, a serem ocupados pelas pessoas com deficiência nas empresas com 100 ou mais funcionários. Em minha opinião, de forma equivocada, ela é vista por muitos como panacéia, como solução ou “cura definitiva” para o problema da baixa participação deste segmento populacional no mercado de trabalho formal no Brasil.

Não há dúvidas de que se trata de um instrumento de ação afirmativa importante, mas é preciso fazer algumas ponderações. Em primeiro lugar, a chamada “Lei de Cotas” é, na verdade, um artigo (93) isolado de uma legislação bem mais ampla, a Lei 8.213 de 1991, que trata do regime geral da Previdência Social.
Ao longo dos últimos 20 anos, assim como se conserta um carro em movimento, foram sendo regulamentadas por meio de Decretos e portarias ministeriais a execução e o processo de fiscalização da “Lei”. Corrijam-me os advogados se eu estiver errado, mas na prática não há uma legislação consolidada que discipline esta ação afirmativa, dando margem, inclusive, para questionamentos e ações na Justiça que versam sobre sua aplicação.
Outro aspecto central: embora tenha “forçado o debate” sobre o acesso das pessoas com deficiência ao trabalho (o que é positivo) – e conseguido impor um ritmo relativamente crescente de contratações – a “Lei de Cotas” é claramente insuficiente para efetivar plenamente o acesso desta população ao trabalho formal.
Recentemente, divulgou-se que apenas 25% das vagas destinadas às pessoas com deficiência no país estão sendo ocupadas (fonte: http://www.ecidadania.org.br), já que das quase 890 mil vagas que deveriam ser preenchidas se as cotas fossem cumpridas na íntegra, cerca de 230 mil estavam de fato sendo exercidas por este grupo populacional em Dezembro de 2010, no Brasil.
É sem dúvida um dado preocupante, mas creio que as atenções e energias daqueles que lidam com esta temática deveriam ser também utilizadas para outra estatística: no Brasil, apenas 5% das pessoas com deficiência está no mercado de trabalho formal, indicando que a imensa maioria delas, 95%, exerce ocupações informais e precárias, recebe benefícios, pensões e aposentadorias, e/ou depende do suporte familiar
Detalhando um pouco mais estes números, a partir dos dados do Censo de 2000, realizou-se um filtro que separou as pessoas com limitações físicas, sensoriais ou cognitivas mais severas, numa faixa etária de 15 a 59 anos. Este contingente, em tese, faz jus à “Lei de Cotas”, compondo um universo de 6 milhões de pessoas. Apenas cerca de 300 mil, equivalente aos 5% já citados, pelos dados da RAIS (Relação Anual de Informações Sociais) entre 2007 e 2009, estão no mercado de trabalho formal.
A estimativa populacional, que apontou para 6 milhões de pessoas com deficiência nos termos acima definidos,  reforça também o quanto é insuficiente a “Lei de Cotas”. Mesmo que ela saísse dos 25% de efetividade atuais e passasse a ser cumprida na sua totalidade, indo para 100%, as 890 mil vagas potenciais ainda deixariam de fora mais do que 5 milhões de pessoas com deficiência, se dependêssemos só da “Lei”.  
Por tudo isso, creio que este instrumento é “super-valorizado” e acaba por tirar o foco de outras ações tão ou mais significativas e necessárias, tais como: a) melhoria das condições de acessibilidade nos municípios; b) revisão da legislação trabalhista no que se refere à aposentadoria por invalidez; c) intensificação dos processos de formação escolar e capacitação das pessoas com deficiência; d) desmistificação de estereótipos ainda associados a este contingente populacional.
Eventuais aperfeiçoamentos na “Lei de Cotas” podem até ser feitos, mas não “com o carro andando” e sem que se leve em conta esta perspectiva mais ampla. Até lá, não se justificam “flexibilizações” e o Ministério do Trabalho e Emprego tem que continuar exercendo seu papel de fiscalizador. O cenário não está bom com a “Lei de Cotas”, mas pior ainda seria sem ela.
Entretanto, a nossa “utopia possível” é que no futuro tal legislação deixe de existir, havendo a incorporação natural das pessoas com deficiência no mercado de trabalho formal.
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quarta-feira, 20 de abril de 2011

Feriados e COPOM

Em função dos feriados em série, o blog volta só na segunda-feira, dia 25.

Antes de ir, uma palavra sobre o aumento de 0,25 ponto percentual da taxa básica de juros (Selic), indo para 12% ao ano.

Luis Nassif (http://www.advivo.com.br/blog/luisnassif/a-prova-de-fogo-do-banco-central-0#more) traçou três cenários para hoje:

1) aumento de 0,50 = ceder às pressões do mercado financeiro;
2) aumento de 0,25 = contemporizar;
3) manutenção da taxa em 11,75% = mostrar a autonomia (essa é boa) em relação ao mercado.

Não deu outra: coluna do meio! E continuamos com os maiores juros reais do planeta!

Segue o barco...bom descanso a todos!

Adriano no Corinthians

Adoraria me enganar, mas acho que a contratação de Adriano para o Corinthians tem tudo para dar errado, por mais de uma razão.
Em primeiro lugar, o atacante de 29 anos não marca um gol há mais de um ano, se apresentou totalmente fora de forma e tem freqüentemente seu desempenho prejudicado por questões extra-campo. As chances de repetir o que fez há dois anos no Flamengo, quando foi decisivo para o título do clube carioca no Brasileiro de 2009, são pequenas. Temo que morar em São Paulo logo se mostre um tédio para o atacante com fortes raízes no Rio de Janeiro e na sua comunidade.
Outro problema é encaixar Adriano no atual time de Corinthians. Não que estejamos jogando bem, ao contrário, hoje vejo o Timão como a equipe mais frágil entre os quatro grandes de São Paulo (um pouco abaixo até do Palmeiras, que recentemente ocupava esta posição). Mas foi possível jogar relativamente bem quando utilizamos o “esquema da moda”: 4-2-3-1, sendo a linha de três com Jorge Henrique, Morais e Dentinho, e o Liedson como o “1”, na frente dessas três. A entrada do Adriano desmonta esse esquema, pois ele só pode ocupar o lugar do Liedson. Este não pode sair do time, mas não faz as funções do Jorge Henrique ou Dentinho, que voltam para marcar. Em suma, a entrada do Adriano vai exigir uma mudança tática no time, provavelmente para o 4-4-2, com mais um jogar no meio e os dois atacantes na frente....será que vai dar certo?
As carências no elenco do Corinthians são muito mais fortes em outras posições do que no comando do ataque, depois da chegada do Liedson. O goleiro Júlio Cesár, em quem eu não acreditava, está indo bem, mas não é tranqüilidade absoluta no gol. Os laterais do Corinthians, Alessandro e Fábio Santos, são, no máximo, regulares. Chicão é nosso melhor zagueiro e capitão, mas falta alguém para jogar do lado dele. Gosto também dos volantes – Ralf e Paulinho – mas há uma evidente e fundamental carência no setor de criação da equipe, já que o Morais é uma opção para o banco, mas não mais do que isso. Enfim, se fosse para contratar alguém, não seria o Adriano. E mesmo do ponto de vista do tão falado marketing, Ganso ou Sedoorf seriam tão ou mais “rentáveis” e se encaixariam perfeitamente no time (Alex que joga na Rússia também).
Voltando ao início, tomara que eu quebre a cara e vou vibrar muito se o time vingar com o Adriano, até porque futebol é paixão e às favas com essa racionalidade de cronista esportivo, já que sou torcedor! Vai Corinthians!
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obs.: esse texto já estava escrito quando chegou a notícia de que o Imperador se machucou e ficará cinco meses fora, sem ter entrado. Notícia ruim...ou boa? Vai Liédson!!  

domingo, 17 de abril de 2011

Quase dois anos

No dia 06 de Maio de 2009, uma quarta-feira, há quase dois anos, foi publicada no Diário Oficial da União a nomeação dos candidatos aprovados no concurso do IPEA (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada). Meu nome estava na lista, para o cargo de Técnico de Planejamento e Pesquisa, na área de proteção social, direitos e oportunidades. Depois de 15 dias, também numa quarta-feira, 20 de Maio, foi publicada minha “desnomeação” no Diário Oficial. O que aconteceu nessas duas semanas? Uma tremenda injustiça.
Aqueles que me conhecem sabem que entrei no movimento social das pessoas com deficiência não por uma questão pessoal. Pelo contrário, desde o início tive uma condição privilegiada para enfrentar os problemas decorrentes da deficiência, e me incomodava muito a condição precária em que viviam, e ainda se encontram, boa parte daqueles com limitações físicas, sensoriais ou cognitivas. Mas tenho que usar esse caso no IPEA porque, para além dos meus interesses particulares, ele é simbólico.
A portaria que tornou nula minha nomeação, quando eu já estava em Brasília, foi motivada por uma ação na Justiça de um candidato com visão monocular (sem a visão em um dos olhos), eliminado na perícia médica já que tal condição não representa deficiência nos termos da Lei. Eu me classifiquei em segundo lugar no concurso, pouco atrás desta pessoa, e com sua eliminação fui para Brasília, junto com meu pai e esposa, levando meu carro adaptado, duas cadeiras de rodas e uma promissora perspectiva de vida na capital federal, também com meu irmão que já estava lá.
Reconheço que é difícil mensurar as dificuldades de cada um e admito que não enxergar de um dos olhos causa algum grau de limitação.  Mas tenho plena convicção de que esta limitação é muito menor do que aquela enfrentada por um tetraplégico ou um cego, por exemplo. Grosso modo, faça uma “experiência prática”: passe um dia com um dos olhos tapados e faça suas atividades. No dia seguinte, tampe os dois olhos, ou sente numa cadeira de rodas, inutilize seus movimentos das mãos e use uma sonda para esvaziar a bexiga quatro ou cinco vezes neste dia.
Sei que estou correndo o risco de ser dramático ou até apelativo. Não quero também reforçar o estigma de “coitadinho” em geral associado às pessoas com deficiência. Mas esse tom que escancara as dificuldades é necessário para que fique claro e não seja esquecido o que aconteceu comigo e com minha família.
No dia anterior da “desnomeação”, 19 de Maio, fiquei quase oitos horas num hospital em Brasília avaliando dores abdominais fortíssimas. Era a terceira vez que viaja de Campinas para Brasília (nas anteriores fui para a prova oral e perícia médica), duas delas de carro, enfrentando os 1000 km de distância. Em boa medida, esse desgaste – junto com um processo que já estava em curso de problemas urológicos – gerou um “desequilíbrio” na minha saúde que persiste até hoje. Também como causa e conseqüência desse quadro, há inevitavelmente o estrago emocional que tal situação provoca.
Daqui há praticamente dez dias, em 29 de Abril de 2011, será julgado em segunda instância o processo que corre na Justiça por essa vaga no IPEA. Minha derrota é praticamente certa, pois o STJ (Superior Tribunal de Justiça) já reconheceu em Súmula o “direito” das pessoas com visão monocular de serem reconhecidas como “deficientes” (em grande medida, luto pelo contrário). Em alguns países, o candidato com deficiência tem uma pontuação adicional em concursos públicos proporcional à sua limitação, o que parece ser mais justo. Colocar todos com deficiência numa suposta situação de igualdade, é banalizar o instrumento de ação afirmativa representado pela vaga reservada.
Por razões pessoais, mesmo que ganhe a ação, dificilmente vou me mudar para Brasília. Mas vou até o fim, porque na minha opinião esse caso simboliza, conforme assinalado acima, como as ações afirmativas podem ser banalizadas, gerando injustiças ao invés de promover equiparação de oportunidades.

sexta-feira, 15 de abril de 2011

“Novo” paradigma – Até o FMI

Recentemente no blog do Luís Nassif, foi reproduzido um pequeno artigo de Olivier Blanchard, economista-chefe do FMI (quem tiver interesse, posso mandar a postagem do Nassif e o artigo original em inglês). De forma relativamente simples e bastante objetiva, o artigo – que foi elaborado por meio de contribuições de outros economistas – resume uma mudança na forma de pensar a macroeconomia, no interior do próprio mainstream, após a crise de 2008.
Antes defensores dos pilares do chamado Consenso de Washington – desregulação financeira, livre mobilidade de capitais, Estado mínimo, agentes racionais e com pleno acesso às informações, etc. – economistas ligados ao FMI afirmam, na síntese de Blanchard, que “o pêndulo da história passou a balançar mais um pouco em direção ao Estado”, em relação ao mercado. Ou seja, o estrago provocado pela crise de 2008 mostrou aquilo que se obtêm quando o Estado é mínimo, omisso e até mesmo conivente com as livres forças do capitalismo.
Blanchar reconhece também que há um novo mundo em termos da geopolítica e das estruturas de poder entre as Nações, exigindo que a política econômica seja pensada com base nessa nova realidade. Nesse novo contexto, distante do mundo ideal e perfeito, para não dizer lúdico, do neoliberalismo, as políticas macroeconômicas podem provocar enormes distorções e afetar de maneira concreta a vida de milhões de pessoas.
Duas simplificações do paradigma anterior são revistas no texto de Blanchard: a) a idéia de que se deve focar determinada política econômica para um único objetivo (juros para combater exclusivamente a inflação, por exemplo); b) a abrangência da política fiscal apenas como fator multiplicador da economia. O mundo e as decisões econômicas são mais complexas, o que exige diferentes instrumentos de política econômica, sendo que as variações da política fiscal têm efeitos econômicos e sociais que são dinâmicos, não uniformes. 
Nessa mesma linha – fugindo-se do mundo perfeito do paradigma neoliberal – são feitas outras considerações sobre o conceito de liquidez e os desafios que se colocam para o futuro. Em síntese, o que importa registrar é que mesmo dentre economistas conservadores ou “de mercado”, começa a ficar claro que se deve pensar a macroeconomia num contexto político, econômico e social mais amplo, ou seja, não adiante utilizar apenas os modelos econométricos e os seus equilíbrios automáticos.
Nesse “novo mundo”, observando os impactos negativos da enorme liquidez mundial e a conseqüente valorização cambial de países com cambio flutuante, como o Brasil, até o presidente do FMI sugeriu a adoção de controle de capitais. Há, portanto, um novo cenário no campo ideológico que pode ajudar na tomada de decisões da Fazenda e, especialmente, do Banco Central no Brasil, libertando-se da visão estreita que prevaleceu durante muitos anos (em que sobressaiam os “cabeças de planilha”, como bem definiu Luís Nassif).

quinta-feira, 14 de abril de 2011

quarta-feira, 13 de abril de 2011

Qual o sentido dos campeonatos estaduais?

Meus amigos são-paulinos vão responder de cara dizendo que eles só existem para o Corinthians ganhar alguma coisa. Não, esse texto não é um exercício de auto-flagelação, já que sou corintiano roxo. Ao fazer a pergunta do título, quero convidá-los para uma discussão mais ampla sobre as razões – ou falta delas – que justificam ocuparmos cinco meses do nosso calendário "futebolístico" com as disputas nos Estados.
No passado, quando as distâncias geográficas pareciam maiores, quando o acesso à informação era demorado, fazia sentido que as competições locais ou regionais fossem as mais importantes. Foi assim durante quase todo século XX, mas já a partir da década de 90 as torcidas começaram a perceber qual era o real “tamanho” do campeonato estadual. Nas décadas de 50, 60, 70 e até mesmo 80, ser campeão paulista tinha um peso enorme, sendo que muitos clubes desprezavam a Copa Libertadores e o próprio Campeonato Brasileiro.
Atualmente, o primeiro semestre só começa a ter mais graça quando se iniciam as fases decisivas da Libertadores e da Copa Brasil. É claro que ninguém quer perder e, se o seu time está na final do Campeonato Paulista, melhor que ganhe. Mas são cinco longos meses – mais de 20 jogos – para chegar até a final do Estadual. Não faz sentido. Os estaduais haviam diminuído quando se adotou o formato de pontos corridos no Brasileiro, em 2003. Mas silenciosamente e de forma gradual foram inchando de novo, e hoje se arrastam até meados de Maio, atrapalhando a pré-temporada e jogos mais importantes na Copa do Brasil e Libertadores.
Sinto muito e respeito o passado dos Estaduais, mas hoje eles deveriam servir apenas como divisão de acesso à terceira série do Campeonato Brasileiro. Nosso calendário, em sintonia com a Europa, deveria começar em Agosto e terminar em Maio (deixando Junho e Julho para as seleções: Copa América, Copa das Confederações e Copa do Mundo). Os grandes times poderiam disputar, simultaneamente, o Campeonato Brasileiro, a Copa do Brasil e a Copa Libertadores (ou Sul-Americana). O Campeonato Mundial de Clubes da Fifa – que o Timão, aliás, foi o primeiro a vencer – deveria ser no final de Maio.
Alguns vão dizer que esse formato prejudica os times pequenos. Sinceramente, vale a pena mantê-los? Qual o percentual de moradores de São Caetano que torcem para o “azulão” e não para um dos grandes de São Paulo? E em Itu ou Barueri? Aqueles times do interior que tem torcida e tradição – como Ponte, Guarani, Noroeste e XV de Piracicaba, dentre outros – disputariam para ser campeão paulista e acessar as divisões do Campeonato Brasileiro, além da Copa do Brasil, podendo crescer e participar de campeonatos sul-americanos a partir daí.
Do jeito que está hoje, mantém-se uma estrutura arcaica de dezenas ou centenas de times sem torcida, que mal pagam os jogadores. Mantém-se também o poder das federações estaduais locais, que realizam campeonatos quase que fictícios por esse Brasil afora. O problema é que dificilmente tais mudanças ocorrerão, pois a CBF se sustenta nesses interesses das federações e os grandes times, ao invés de seu unirem, ficam alimentando provocações e desavenças. Mas, não custa sonhar....com a mudança do calendário e um título na Libertadores para o Cúrintia!!!
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segunda-feira, 11 de abril de 2011

A pior parte

Quando alguém vê uma pessoa na cadeira de rodas, logo pensa o seguinte: nossa, deve ser muito difícil não poder andar, correr, se movimentar; e pensa também na questão sexual: como é para ter relação, ter filhos e tal. Conclui-se logo que, por essas duas coisas – não poder andar e ter complicações na sexualidade – a vida do sujeito é uma desgraça.
Pois bem, a pior parte de estar numa cadeira de rodas depois de uma lesão medular, pelo menos na minha opinião (e de alguns amigos também), não é nem uma coisa nem outra. O “bicho pega” quando se trata do controle e funcionamento das funções biológicas. Até pouco tempo atrás, a principal causa de morte das pessoas com trauma na medula era justamente o problema urológico (além das chamadas escaras, ou úlceras de pressão).
Eu lidei razoavelmente bem com isso nos dez, doze primeiros anos de lesão medular. Na verdade, fui até um pouco irresponsável porque escolhi um urologista que dizia o que eu queria ouvir: está tudo certo com sua bexiga e rins, não precisa fazer nada! Depois de infecções urinárias bravas me disseram que se eu continuasse assim iria me enrolar no futuro, com problemas nos rins. Aí passei a fazer os cateterismos ou sondagens urinárias, quatro ou cinco vezes por dia, num intervalo de mais ou menos 4 horas.
Isso é muito chato, pois tenho que pensar numa rotina diária baseada nesse “cronograma” de sondagens, além de complicar para viajar.  Ademais, é óbvio que nem sempre a bexiga e os rins seguem o horário de Brasília, o que dificulta esse planejamento. As infecções urinárias continuam constantes (mas controladas) e, de tempos em tempos, aproximadamente a cada seis meses, tenho que fazer uma aplicação de botox não para fins estéticos (quem sabe no futuro), mas para facilitar a bendita da sondagem e dar um descanso para a bexiga (vou fazer de novo nos próximos dias).
Além da questão urinária, não controlar o número 2 também não é nada agradável, mas como a freqüência é menor, atrapalha menos o dia a dia. Enfim, muito mais do que não poder andar (embora eu sinta falta de jogar futebol), ou a questão sexual (a grande maioria dos lesados medulares têm relações sexuais “normalmente”, mas poucos preservaram a ejaculação), o mais chato e a pior parte de estar numa cadeira de rodas é o não controle das funções biológicas.

A medicina está avançando e tratamentos com um chamado “marca-passo urinário” poderão nos ajudar muito no futuro. O negócio é agüentar e esperar esse tempo chegar, nem que seja na base do botox!
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sexta-feira, 8 de abril de 2011

Os passos seguintes

Com o final do governo Lula, em 2010, todas as forças políticas relevantes no Brasil pós-fim do regime militar já ocuparam o poder a partir de eleições diretas. Completou-se um ciclo de 21 anos iniciado com a eleição de Fernando Collor em 1989. Com exceção deste, cujo governo foi tumultuado e marcado pela corrupção e processo de impechement, e sem entrar no clima de “Fla-Flu” que por vezes marca o debate entre PT e PSDB, é possível observas ações positivas nas administrações de Itamar, FHC e Lula.
Como ministro da Fazenda de Itamar e depois no seu primeiro mandato, FHC exerceu um papel importante para o fim do período hiper-inflacionário que vinha se perpetuando no país desde a década de 80. A estabilidade de preços foi alcançada e permitiu um novo patamar de desenvolvimento da economia brasileira. Porém, ao embarcar na onda neoliberal dos anos 90, o governo FHC comprometeu as finanças do país, produziu a fragilização do Estado e o crescimento do desemprego e sua precarização, fatores que explicam, em grande medida, seus baixos índices de aprovação ao final do segundo mandato – em torno de 20% – e a eleição de Lula, em 2002.   
O primeiro governo de Lula foi uma decepção para muitos que esperavam uma mudança de rota no campo da política econômica, dentre os quais me incluo. Porém, visto em perspectiva, a manutenção dos eixos centrais da política econômica e a escolha de um “homem do mercado financeiro” para o Banco Central parecem ter sido a estratégia possível naquele momento. A saída, por linhas tortas, de Antonio Palocci da Fazenda possibilitou esboçar outro modelo centrado no crescimento econômico e inclusão social; modelo este que ainda é uma obra imperfeita e inacabada. Mesmo assim, Lula deixa o governo com 85% de aprovação, percentual impressionante e que já está consolidado, ninguém pode tirar do “sapo-barbudo”.
A eleição de Dilma Roussef e seus primeiros meses do governo ocorrem num momento favorável que se abre com a crise financeira de 2008-2009 no campo ideológico, jogando por terra idéias consagradas da fase anterior (plena liberdade de capitais, desregulação financeira e racionalidade dos mercados). Hoje, até o FMI avaliza o fim do “Consenso de Washington” e sugere, por exemplo, controles de capitais.
Mas é preciso dar os passos seguintes: adequar a taxa de câmbio, hoje com o real supervalorizado em relação ao dólar, para níveis competitivos e reavaliar o modelo de metas de inflação (o que está em curso) de maneira a diminuir as escandolosas taxas de juros praticadas no Brasil.
Como fazer isso fica para outra postagem que provavelmente só irá interessar aos economistas de plantão. O importante é enfatizar a necessidade do ajuste dos preços-chaves da nossa economia – juros e câmbio – para que o Brasil avance no seu desenvolvimento social e econômico, livre das amarras do rentismo, que transfere cerca de 150 bilhões de reais anualmente para os detentores de títulos públicos (valor maior do que se gasta em Saúde, Educação ou no Bolsa-Família).
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quinta-feira, 7 de abril de 2011

Violência em Escola no Rio

Tinha já preparado um texto para postar sobre política e economia, mas uma tragédia como essa que ocorreu no Rio de Janeiro ocupa nossas mentes e corações. Ao mesmo tempo, não quero ficar "explorando" este assunto. Quero apenas endossar a observação do meu amigo Rolha, que lembrou a derrota da proposta de desarmamento em 2005. É claro que é praticamente impossível evitar a ação de um psicopata, mas na medida em que continuamos com uma legislação frouxa sobre a posse de armas, maiores as chances de que coisas assim aconteçam. Sobre o tema, vale sempre lembrar o excelente documentário "Tiros em Columbine" de Michael Moore, cuja primeira parte pode ser vista no link abaixo.

http://www.youtube.com/watch?v=Ezhp7YrJC24

quarta-feira, 6 de abril de 2011

Mário Sergio Cortella

O texto sobre fé e religião rendeu várias mensagens interessantes! Procurei reproduzir no post os comentários que recebi. Abaixo mando o link de um trecho de uma palestra do Mário Sérgio Cortella, educador e filósofo que tivemos o prazer de receber aqui em Campinas num evento em 2005, se não me engano. Quem me indicou foi o Marcelo Costa, velho amigo dos tempos de Escola Comunitária. Vale a pena assistir!

http://www.youtube.com/watch?v=1w6_vXBJYqw

Religião, fé e esperança

Não meus amigos, não me converti e nem quero converter ninguém. Resolvi escrever sobre esse polêmico tema porque ando pensando nessas coisas. Quando acontece algo trágico na vida de alguém, são variadas as ofertas – em geral bem intencionadas – daqueles que querem lhe apontar o caminho, mostrar a luz ou lhe convencer que, no fundo, é tudo obra de Deus e é preciso aceitar.
Respeito as religiões e a liberdade de cada um em exercê-las, mas, no meu caso, depois que adquiri a deficiência, não adiantou muito. Continuo sendo um agnóstico (que não é o mesmo que um ateu). Como agnóstico, eu simplesmente não sei se existe uma divindade superior. Não sei, mas tenho esperança e fé que exista. Talvez não um ser iluminado, mas que exista mais do que aquilo que vivemos todos os dias, que exista algum sentido maior nas relações humanas e na própria vida cotidiana de cada um.
Não sou religioso, mas rezo e tenho fé. Imagino “Deus” como um conjunto de valores e princípios positivos que representam a bondade, a generosidade e, sobretudo, um senso de justiça social. A maneira de se aproximar de “Deus” – muito mais do que freqüentar um culto ou repetir sem pensar rezas e orações – é exercer diariamente esses valores positivos. Com isso você não está isento de problemas e dificuldades (não se trata de um acordo com “Deus”), mas, talvez, eu espero, você está no caminho correto e encontrará aquele “sentido maior”.
Para terminar, reitero a importância do respeito às religiões e às crenças individuais, mas algumas coisas me irritam. O jogador de futebol que agradece a Deus pelo gol que fez ou, pior ainda, o sobrevivente de uma catástrofe que atribui sua “sorte” a Deus. E os outros 500 que morreram?! Todos ateus pagãos?! Não, não podem ser. Na minha opinião, “Deus” não faz essas escolhas seletivas. Somos o que somos pelas circunstâncias de vida de cada um, tentando ser felizes e enfrentando adversidades que devem ser menores do que nossa alegria, se “Deus” quiser.

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terça-feira, 5 de abril de 2011

Início

Compartilhar notícias, opiniões, reflexões e idéias. Pretendo fazer isso nesse espaço, sem nenhuma pretensão de ser “seguido” ou acompanhado. Se isso acontecer, ótimo, sempre é bom ouvir o que os outros tem a dizer. Se não acontecer, tudo bem, fico aqui falando comigo mesmo, numa espécie de diário “virtual”.
Escrevo essa mensagem inicial no dia 05 de Abril de 2011, exatamente 16 anos depois do acidente (mergulho) que provocou minha lesão medular, em 1995. Alguns dizem que acontecimentos deste tipo são como um segundo aniversário, pois marcam fortemente uma nova etapa de vida. Pode até ser, mas não tenho dúvidas de que sou hoje uma "mescla" dos 19 anos como andante com os 16 de cadeirante.
Vou escrever aqui sobre coisas que já me interessavam antes, como economia, política e futebol. Mas vou também usar esse espaço para debater o tema das pessoas com deficiência na sociedade. Quero escrever sempre aqui no blog, mas não sei se será possível. Seja como for, inicia-se agora este diário público e privado daquilo que penso sobre esses três temas. Vamos ver no que vai dar. Amanhã eu volto.